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Sem tomar vacina, Bolsonaro boicota plano do governo de combate à Covid

Posted on May 4, 2021

Um novo plano de comunicação foi elaborado pelo governo federal na tentativa de unir os brasileiros contra a Covid e incentivar a vacinação. A estratégia contava com o presidente Jair Bolsonaro tomando a primeira dose da vacina, com ampla cobertura da imprensa, e até um evento com a primeira-dama Michelle Bolsonaro e o Zé Gotinha, símbolo das campanhas de vacinação no Brasil. Mas nada disso saiu do papel, por causa do próprio presidente.

A Repórter Brasil teve acesso ao novo plano de comunicação do governo federal, elaborado em março pela Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom), em parceria com o Ministério da Saúde, para “ampliar as ações de comunicação” na pandemia, em meio à “grave expansão da Covid-19”. Apesar do recorde de internações e mortes nos últimos dois meses, nenhuma das ações envolvendo o presidente foi executada até agora. 

Além da imunização de Bolsonaro em evento público, estava prevista a participação do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, na live do presidente em 1º de abril, quando seriam anunciados um mutirão de vacinação no feriado de Páscoa e novas medidas da Saúde. Até hoje, porém, Queiroga não participou de nenhuma transmissão. Na live daquele dia, Bolsonaro insinuou que não precisaria se vacinar por já ter contraído o vírus e supostamente estar protegido – informação errônea que ele já repetiu diversas vezes.

Aos 66 anos, Bolsonaro poderia ter se vacinado desde 3 de abril, segundo o cronograma do Distrito Federal. Uma estrutura chegou a ser montada no Ministério da Saúde para aplicar a dose naquele dia, segundo o jornal Valor Econômico, mas o ato não aconteceu por recusa do presidente.

A vacinação de Bolsonaro seria um “exemplo fundamental” e daria “confiança e segurança” à campanha, principalmente àqueles que ainda hesitam em se vacinar, afirma Inesita Araújo, coordenadora do grupo de Comunicação e Saúde da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva). “Não é por acaso que os presidentes se vacinam logo e com grande visibilidade, como estímulo a ‘seguir o exemplo do líder máximo da nação’.” 

Pazuello e Bolsonaro, lado a lado e sem máscaras, durante apresentação do plano de vacinação contra a Covid, em dezembro; no mesmo evento, Zé Gotinha recusou aperto de mãos com presidente (Foto: Isac Nóbrega/PR)

Sem o exemplo presidencial, o que se vê são casos como o do ministro Luiz Eduardo Ramos (Casa Civil), que revelou ter se vacinado “escondido” em Brasília, seguindo ordens superiores. “Tomei escondido, né, porque a orientação era para todo mundo ir para casa, mas vazou. Não tenho vergonha, não”, disse Ramos em reunião ministerial – sem saber que o encontro era gravado e transmitido em tempo real. O ministro afirmou que tenta convencer o presidente a se vacinar.

O plano de comunicação obtido pela reportagem é assinado pelo almirante Flávio Rocha, que comandou a Secom de 11 de março a 14 de abril. A ideia era aproveitar a transição de poder no Ministério da Saúde – do general Eduardo Pazuello para o médico Queiroga – e apresentar uma nova estratégia de comunicação no enfrentamento à pandemia. Desde que foi anunciado no cargo, o novo ministro destaca a necessidade de unir o Brasil contra o coronavírus. Um dos obstáculos, contudo, é o presidente.

A participação do Zé Gotinha estava prevista também para o dia 3 de abril, em uma ação conjunta com o programa Pátria Voluntária, liderado por Michelle Bolsonaro. Não há detalhes sobre como seria a atuação do personagem símbolo do SUS com o programa de doações empresariais da primeira-dama.

“Sejamos uma pátria de vacinas, uma pátria de máscaras” era um dos lemas da ação, que incluía também um mutirão de vacinação na Semana Santa. O governo queria aproveitar a entrega de 9 milhões de doses naquele feriado, a maior até então desde o início da campanha, e usar a vacinação de Bolsonaro para colocar o plano em marcha. 

Sem o engajamento do presidente, no entanto, apenas ações de menor impacto foram executadas, como a mudança nos avatares dos ministérios nas redes sociais, destacando a campanha “Brasil Imunizado” e a realização de coletivas de imprensa semanais com o novo ministro – o que não ocorria na gestão Pazuello. Propagandas sobre a vacinação também são veiculadas atualmente em rádio e TV (confira o plano na íntegra)

Para a pesquisadora da Abrasco, a associação do Zé Gotinha ao universo das armas, como fez o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), gerou uma onda de protesto nas redes sociais e na imprensa. “O inocente Zé Gotinha foi primeiro armado, depois desqualificado, desfigurado em seu sentido de incentivo à vacinação. Creio que é por isto que sua presença foi diminuída ou quase apagada”, afirma.

Estratégia governamental previa que Bolsonaro mencionasse mutirão de vacinação em live de 1º de abril, mas anúncio não ocorreu (Foto: Breno Esaki/Agência Saúde DF)

Procurada pela Repórter Brasil, a Secom informou que mantém o plano de vacinar o presidente em ato público, mas não informou em qual data. Também não respondeu sobre o evento com a primeira-dama e o Zé Gotinha. “A estratégia de comunicação não pode passar por cima da liberdade dos cidadãos em seu direito de decidir se se vacinarão ou não. Impende informar que a ação ainda não ocorreu, mas é parte do planejamento”, diz a nota. 

Sobre o cancelamento do mutirão, a Secom disse que alguns municípios decidiram interromper a vacinação em alguns dias do feriado, o que descaracterizaria o perfil de mutirão. “Contudo, comemoramos um total de 3,9 milhões de doses aplicadas de 29/03 a 02/04, segundo dados do DataSUS, com pico de 1.070.564 doses em 30/03”. Veja as respostas da Secom na íntegra. 

O Ministério da Saúde e a Casa Civil foram procuradas, mas não se manifestaram.

As campanhas de comunicação do governo federal sobre a pandemia são alvo de investigação do Tribunal de Contas da União e do Ministério Público Federal e também estão no radar da CPI da Covid no Senado.

“A participação do presidente da República numa campanha como essa, especialmente sendo vacinado e isso publicamente divulgado a toda a população brasileira, teria um papel importantíssimo, como uma forma de reforçar a credibilidade da vacina e a necessidade de vacinação”, diz o senador Humberto Costa (PT-PE), que é ex-ministro da Saúde (2003-2005) e membro da CPI.

‘A recusa do presidente em participar de um evento como esse é uma demonstração clara do pouco caso que ele faz ao enfrentamento à pandemia’, afirma.

Em dezembro, a Repórter Brasil publicou reportagem mostrando que as propagandas da Saúde na gestão de Pazuello deixaram as medidas de prevenção em segundo plano e focaram na reabertura do comércio e até na exaltação do agronegócio.

O plano atual da Secom foi enviado pela União à Justiça Federal no Rio Grande do Sul, onde corre uma ação contra o governo federal pela adoção de um plano de comunicação efetivo contra a Covid. O pedido foi feito por 38 procuradores da República em 24 estados e no Distrito Federal. A União argumentou que o pedido não deveria ser aceito pois já existiria um plano de comunicação implementado. 

Trecho do plano da Secom para mutirão de vacinação na Semana Santa e vacinação do presidente em ato público (Foto: Reprodução/Secom)

Mas a magistrada Paula Beck Bohn rejeitou o argumento e, em decisão liminar, determinou que a União apresente um novo plano para enfrentar a pandemia. Para a juíza, o plano do governo não pode deixar de lado as medidas de prevenção. “A vacinação de fato vem ocorrendo, entretanto, isoladamente, não tem o poder de arrefecer o avanço da pandemia, considerando o gravíssimo momento da crise sanitária nacional.”

Bohn ressaltou a importância de envolver autoridades na orientação da população, tendo em vista o potencial midiático dessa participação, e disse, por exemplo, que o uso “reiterado e contínuo” de máscaras por autoridades federais seria um “ato simples e de amplo efeito”.

Sem citar Bolsonaro, a magistrada afirmou que “diversas pessoas vinculadas à administração” continuam fazendo aparições públicas sem máscara e sem respeitar distanciamento social, e que essa postura transmite à população a mensagem de que esses hábitos não evitam a transmissão do vírus. Ela criticou ainda a priorização de mídias digitais nas ações de comunicação, ressaltando que campanhas em rádio e TV seriam mais efetivas. 

Em outro desdobramento envolvendo a comunicação do governo na pandemia, a Justiça Federal em São Paulo proibiu a União de fazer propaganda sobre o “tratamento precoce”, em razão de uma campanha da Secom que usou influenciadores para espalhar mensagem em prol do “atendimento precoce”, em caso revelado pela Agência Pública. Segundo a decisão, apesar de usar a palavra “atendimento”, a referência das campanhas é aos medicamentos do chamado “kit covid” e ao suposto “tratamento precoce”. Ainda de acordo com a decisão, as propagandas do governo deveriam ser “claras e transparentes”, mas a campanha em questão no mínimo induz a população ao erro.

Mesmo após o Brasil superar a marca de 400 mil mortes, a comunicação do governo ainda não conseguiu escalar em suas campanhas dois garotos-propaganda capazes de engajar a população contra a Covid: o presidente da República e o Zé Gotinha.

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